7 de Junho: No aniversário de 122 anos, Cabelo Seco quer saúde como presente

Atualmente o bairro recebe a obra de construção do muro de contenção dos Rios Tocantins e Itacaiunas, o que vai tornar a Orla do bairro ainda mais especial para vislumbrar o pôr do sol

Considerado o segundo aniversário de Marabá, o domingo 7 de junho, é especial para moradores do primogênito Bairro Francisco Coelho, localizado no núcleo da Marabá Pioneira. Popularmente conhecido como Cabelo Seco, o local, que abriga o monumento de Francisco Coelho da Silva, tido como colonizador do município, também já foi chamado de Pontal e ainda Cai n’água. O lugar histórico e de potencial turístico imenso, por ser banhado pelos rios Tocantins e Itacaiunas abriga moradores, que nesta data especial não irão festejar com o tradicional bolo, devido à pandemia do novo coronavírus. Mas, narram motivos de sobra para não abandonar o lugar.

A data oficial da Fundação do antigo Pontal, que já foi também Vila Marabá, segundo o Almanaque de 100 anos do município, registra 7 de junho de 1898 como a ocasião em que o maranhense de Grajaú, Francisco Coelho, teria se mudado da colônia agrícola na margem esquerda do Tocantins para a foz do Itacaiunas. A data é tida como o dia em que o comerciante maranhense inaugurou a casa de comércio “Marabá”, estabelecimento que acabaria por emprestar à futura cidade o seu nome definitivo. Nessa matemática, conta-se 122 anos comemorados pelo Cabelo Seco.

O contexto histórico do bairro é de suma importância, porém a essência está nos relatos populares de moradores que, grosso modo, enterraram seu umbigo no Cabelo Seco, e nem mesmo a enchente, que persiste em tentar expulsá-los quase todos os anos, não é o bastante para os convencer a mudarem de endereço. O mestre Zequinha Souza é um desses moradores, apaixonado pelo local, onde nasceu e criou-se e vive há 66 anos.

Ainda criança, ganhou o apelido de Zequinha do pai, Raimundo Rodrigues, conhecido pescador do bairro, à época, falecido em 1973, quando Zequinha começou a pegar as rédeas e ajudar a criar os outros nove irmãos. Devido à profissão do pai, Zequinha conhece de “cabo a rabo” os rios que banham Marabá. Ele conta que no período do Ciclo da Castanha, quando era criança, além de estudar, ajudava a descarregar os barcos que chegavam lotados da amêndoa. As castanhas que caíam, Zequinha aproveitava também para vender.

Zequinha Marinho é apaixonado pelo bairro e conhece os rios de ponta a ponta

Como lembranças também da época, mestre Zequinha narra que estudou nas escolas José Mendonça Vergolino e Plínio Pinheiro. “Em 1968 ganhei medalha de melhor aluno do primário, não faltava e tinha bom comportamento. Me orgulho disso”, relembrou ele, com muito saudosismo.

Desde os 12 anos, mestre Zequinha já tocava instrumentos musicais para ajudar também na renda da família. Baixo, bateria, guitarra e teclado estão entre os instrumentos que ele tocava e ensinava nas bandas na época, provando ser um verdadeiro autodidata. “Eu fazia a 3ª série quando vi os autores do Hino de Marabá, Moisés da Providência Araújo e Pedro Valle, ensaiando. Eu passava com o balde de peixes e ficava vendo os dois tocando, porque meu dom era a música”, destacou.

Zequinha narrou um episódio onde o banzeiro do rio levou uma flauta que ele gostava muito. “Eu fiquei muito triste. Meu pai, para me consolar, me fez uma viola de buriti. Depois ganhei um violão e aprendi a tocar sozinho”, recorda o artista, que também esteve na Colômbia e em Nova York (EUA), participando do projeto Rios de Encontro, em 2015, onde ganhou prêmios pelas produções que destacam a Amazônia com narrativas pujantes e concretas.

Outro fato interessante que Zequinha relembrou, ocorreu em 1955, quando um avião carregado de carne passou raspando o telhado de sua casa, e de outro que chegou a cair. Os destroços ainda estão soterrados no rio. “Depois daquele episódio, a gente pescava e enganchava o anzol em parte da fuselagem do avião, inclusive, aquela via do Balneário Mangueiras era uma pista de avião”, contou.

Mestre Zequinha lembrou até mesmo a origem do nome Cabelo Seco, que se deu em função da culinária quilombola, na Serra dos Quindangues, na época do ciclo da castanha. “Os trabalhadores falavam: – vamos almoçar no barracão das negras do Cabelo Seco. A comida cheirava muito, foi daí que pegou o nome Cabelo Seco”, ressaltou ele.

Atualmente, mestre Zequinha é aposentado e toca esporadicamente para complementar a renda. Reside à Avenida Marechal Deodoro, na Orla Sebastião Miranda, lá onde o vento faz a curva em direção ao Itacaiunas, e vice-versa.

Bairro “Cabelo Seco” visto de cima

Aprender a nadar engolindo piaba

Outra moradora também apaixonada pelo bairro é a funcionária pública federal Ana Luiza Rocha da Silva, de 64 anos. Ela também mora na Orla, nascida de parteira no Cabelo Seco, numa família de 9 irmãos. Filha da saudosa e querida Zenite Rocha, lavadeira que foi homenageada com uma passagem próxima à igreja São Félix de Valois, a qual leva seu nome hoje.

“Aqui [no Cabelo Seco] é minha casa, minha vida, nasci, me criei e me casei com o pernambucano Orlando Souza da Silva. Tenho um casal de filhos e 7 netos. Sou filha de lavadeira e minha mãe criou dez filhos na beira do rio, aprendi a nadar sozinha. Engolia as piabinhas, porque a crença popular dizia que para nadar bem tinha de engoli-las. Tenho saudade das brincadeiras de roda, trisca, todas as brincadeiras saudáveis da infância”, relembrou Ana Luiza.

Quando teve de morar em Tucuruí, por questões de trabalho, nunca esquecia seu bairro. “Quando era noite eu fechava meus olhos e via todo Cabelo Seco, as pessoas sentadas nas portas conversando. Hoje o nosso bairro continua assim. Eu comparo com uma aldeia: mexeu com um, mexeu com todos”, garante, pedindo um presente neste aniversário: saúde.

Funcionária pública Ana Luiza Rocha nascida e criada no bairro Cabelo Seco

Por fim, o Francisco Coelho também tem morador que não nasceu no bairro, mas que mesmo com condições financeiras melhores decidiu mudar-se para lá. O militar aposentado, Estanislau Cordeiro, conhecido como “Coronel Cordeiro”, é morador do Cabelo Seco desde 2008, há 12 anos. “É um bairro muito bom que eu escolhi para morar, em virtude dos parentes da minha mulher já residirem aqui. Para mim é uma satisfação imensa. Minha vizinhança é muito boa, muito tranquila. Todos os bairros têm problemas, mas aqui os problemas são menores em relação aos do restante da sociedade local”, afirmou ele.

Coronel Cordeiro reconhece que Marabá está passando por um momento difícil, além dos recorrentes problemas sociais que já existem, como a enchente. Entretanto, está preocupado agora com a pandemia, que também atingiu o bairro. “Estamos pedindo a Deus que tudo passe, porque Marabá é uma cidade boa de se morar, porque tudo que planta aqui dá”, destacou.

Para ele, o Cabelo Seco é um bairro especial, não apenas por ser o primogênito de Marabá, onde tudo começou, mas também pelo progresso. “Francisco Coelho tem referencial histórico e geográfico, além de potencial turístico muito grande. Quando passar os maus tempos, novos investimentos virão para gerar mais empregos”, previu Cordeiro.

Somando as comodidades de quem mora no Cabelo Seco, como apreciar o pôr do sol diariamente, ter um cartão-postal grátis que é a orla de Marabá, que atualmente passa por obras, e não precisar do transporte para visitar o comércio lojista, o pedido de aniversário de todos nesses 122 anos de bairro ecoa num desejo só: saúde.

“Coronel Cordeiro”, é morador do Cabelo Seco desde 2008 e adora a vizinhança

Texto: Emilly Coelho
Fotos: Ulisses Pompeu/ Divulgação

Acessibilidade