Covid-19: CAPS funciona em regime especial durante quarentena

Controle de informações, pensamentos positivos e exercícios físicos em casa ajudam a manter a saúde mental durante isolamento doméstico

O Centro de Atendimento Psicossocial de Marabá (CAPS III) está funcionando em regime especial. Não estão sendo realizados os grupos de trabalho ou convivência , nem as sessões de terapias de pessoas estáveis, que devem procurar o órgão apenas para renovação de receitas. No momento, o atendimento é apenas em casos de pacientes em crise e acolhimentos de primeira vez.

Como Marabá está em isolamento, com as aulas suspensas, e o comércio, bares e restaurantes  funcionando parcialmente, a recomendação é que se permaneça o maior tempo possível em casa, de quarentena. Todas essas mudanças e o isolamento social provocado por elas podem afetar de alguma forma a saúde mental. Para evitar que isso aconteça, conversamos com o médico em Saúde Mental e um dos psicólogos do Centro de Atendimento Psicossocial de Marabá (CAPS III).

“É um momento único. Temos a tendência a termos um desconforto emocional provocado pelo isolamento. Isso pode fazer até com que nosso sistema imunológico seja afetado por substâncias do organismo ao ficar por longo tempo estressado, como a corticóide”, reforça Lucas Scoot Walfredo Ranieri, psicólogo do CAPS.

QUARENTENA COM PESSOAS QUE POSSUEM TRANSTORNOS 

“Quem convive com alguém com transtorno em casa é importante que se faça o kit de primeiros socorros da saúde mental. Primeiro, manter o corpo ativo com exercício físico, meditação. Segundo, ter próximo alguém que com quem possua um grande vínculo e que esteja disposta a ouvir essa pessoa. Terceiro, cuidar do espiritual, seja qual a forma de espiritualidade dessa pessoa. Em caso de crise ou piora, a orientação é que vá para o CAPS, não para o hospital”, destaca Charles Roosevelt, médico de saúde mental do Centro de Atendimento Psicossocial de Marabá.

Entre os problemas de saúde mental mais comuns que podem surgir durante a quarentena estão pânico, ansiedade social, depressão, hipocondria, piora de neuroses, crises que passam da mente para o corpo, com o aparecimento de sintomas físicos. “Uma dor que apareceu do nada, falta de ar, nariz entupido. Coisas que podem acontecer simplesmente por causa do estresse mental”, sublinha.

SEJA RACIONAL 

Charles destaca que o primeiro passo para lidar com a questão é encará-la com racionalidade, entender que ela não é definitiva. “Essa nova mutação do coronavírus nasceu da forma como a gente lida a nossa relação com a natureza. A epidemia não pode ser parada, não está em nosso poder. O vírus não é uma punição divina, não é uma guerra biológica ou uma coisa que possamos simplesmente culpar alguém, ou um país”, reforça.

Ele explica que esses pensamentos são nocivos tanto para si mesmo, quanto para as pessoas ao seu redor, devido três fatores. “Primeiro, a ideia de punição divina traz a sensação de culpa. Segundo, a ideia de um inimigo trás o sentimento de raiva, vingança. O terceiro é a noção de impotência, é uma questão de natureza, é a natureza acontecendo. Devemos seguir as dicas dos profissionais e preservar nossa saúde”, reitera.

DICAS

Controlar as informações: Buscar apenas informações necessárias e confiáveis, evitando o excesso, que atrapalham e dificultam o discernimento da situação. “Uma boa ideia é buscar as informações pela manhã, faça a coleta, pois é importante se manter informado e depois imponha limites e filtros nas informações vindas de whatsapp, facebook, boatos”, comenta Lucas Scoot.

Exercícios físicos: Fazer alguma espécie de exercício físico, movimentar o corpo é essencial. “Cuidar do corpo, fazer meditação, corrida, limpar a casa, exercícios simples. Executar atividades que movimentem seu corpo”, ressalta Charles.

Pensamento positivo: Lembrar que o isolamento é necessário, mas não definitivo. Evitar pensamentos vitimistas que distorcem a realidade.

Criar uma rotina para aproveitar o tempo livre: “Estudar, aprender algo novo, começar uma horta, criar novas rotinas que você não podia fazer antes. Importante que não fiquemos parados, fazer uma lista das coisas que é preciso fazer em casa, produzir rotina diariamente. Aproveitar a oportunidade para se conectar consigo mesmo, buscar reflexão”, sugere Charles.

Manter o contato social: “Somos pessoas de contato e conexões, o isolamento é corporal, mas não das pessoas. É importante que mantenhamos ou até criemos novas conexões virtuais para manter a vida em sociedade. Fazer chamadas de vídeos”, recomenda.

Expressividade: Falar, contar, cantar, pintar, escrever e outros.

Solidariedade e empatia: A sensação de fazer algo bom ao próximo traz mais conforto e ajuda a lidar com a situação. “Países que são mais solidários, as pessoas passam pelas crises de maneira mais leve. Solidariedade é uma forma de manter a saúde mental”, conta Charles.

CUIDADOS ESPECIAIS

Grupo de Risco: Idosos, cuidadores, pessoas com transtornos. Observar se existe medicação e base médica de saúde para passarem bem esse período de isolamento doméstico, além de informá-los da maneira mais clara possível. “Usar a criatividade, deixar placas informando ‘lave as mãos’, ‘não esqueça o álcool em gel’, explicando o que estamos vivendo”, indica Charles.

Crianças: Buscar construir um ambiente de expressividade. “Crianças também sofrem com isso. Precisam expressar seus sentimentos de raiva, alegria e desejo. Dar esse espaço à elas, sentar uma hora por dia, questionar como ela está. Fazer brincadeiras, utilizar musicas, imagens para dar a informação clara do que está acontecendo”, pontua o médico.

Lideres de equipe e agentes de saúde: “Essas pessoas estão bastante suscetíveis a problemas mentais durante as crises. Os lideres devem se cuidar bem, ser exemplo de cuidado e mitigação. Conhecer seus limites, dar pausas e sempre manter ativo o kit de primeiros socorros da saúde mental que comentamos anteriormente”, conclui o psicólogo.

Médico do Caps, Charles Vasconcelos
Lucas Scoot Walfredo Ranieri, psicólogo do CAPS

 

 

 

 

 

 

Texto: Osvaldo Henriques
Fotos: Arquivo

 

 

 

Acessibilidade