Professores fora de série: Da necessidade ao amor pela profissão

(23 de março de 2021)

“É uma trajetória difícil, mas é gratificante você escutar de um pai ao final do ano que seu filho avançou, está sabendo ler, o pai agradece e você enxerga que o aluno aprendeu”.

Professora Rosilda Maria dos Santos, 50 anos.

O caso de Rosilda Maria dos Santos com a educação, não foi como um conto de fadas, do tipo “amor à primeira vista”. Foi amor à segunda vista, porque para se apaixonar pela docência, necessitou primeiro começar a colher os frutos plantados através de uma árdua carreira. A partir de então, ela engatou a primeira e mesmo após ter sofrido um acidente, não deu marcha ré, se superou e pegou gosto pela profissão. Dos 50 anos de idade, 32 foram dedicados à educação, sendo 25 deles em sala de aula.

Em 1986, quando Rosilda começou a lecionar na Escola Francisco Coelho, no Km 11, zona rural de Marabá, por meio de influência de sua mãe adotiva, o momento foi desafiador. Pegar carona em caminhões para chegar até a escola para trabalhar, morar em casas de conhecidos, reaproveitar o lixo reciclando para ter aulas mais didáticas, foram alguns dos muitos desafios por ela enfrentados. “Eu vim da extrema pobreza, minha mãe não tinha condições financeiras, mas eu sempre tive vontade de ser mais”, conta.

Para Rosilda, a vida naquela época era muito corrida, no início também não era a profissão dos sonhos dela. “Na verdade, ser professora não era meu sonho, eu tinha vontade de fazer agronomia, porém devido às condições não pude. Mas eu aprendi que temos de valorizar o trabalho que supre as nossas necessidades”, lembra ela.

Devido à logística e dificuldades da época, Rosilda teve que parar de lecionar por um período, retornando em 1992 na Escola Arco-Íris e foi então que ela se encontrou na profissão. “Era bem diferente de hoje, porque naquela época não tínhamos facilidade, era somente quadro, giz e a saliva. Para fazer a reciclagem nós reutilizávamos o lixo, como garrafa pet, palito de picolé e caixas, tudo isso para fazer a diferença na vida dos alunos. Eu aprendi a gostar da profissão. Nesse caminho da educação sempre encontrei pessoas as quais me incentivaram”, relata a professora.

Entre as escolas municipais que Rosilda deu aula, além da Francisco Coelho, estão a Castro Alves, Pedro Peres, Arco-íris e atualmente está na Escola Isaura de Fátima Nocetti, que funciona na Associação de Moradores em Morada Nova, todas públicas. “Eu acredito e sempre acreditei na escola pública, inclusive meus filhos tiveram formação em escola pública também”, menciona ela.

Foi no projeto Gavião, que Rosilda aproveitou a oportunidade para terminar o Magistério. Ela se dividia entre ser professora, estudar e realizar os afazeres do lar. “Depois de muitas dificuldades na sala de aula, apareceu o mimeógrafo, mas nem todas as escolas tinham esse recurso à época. Eu entrei [na profissão] pela necessidade e aprendi a fazer o meu trabalho com amor”, reitera. Em 2000, Rosilda prestou concurso para Prefeitura de Marabá, zona rural e foi aprovada e convocada. Nas escolas que trabalhou era multitarefas, chegou a servir merenda, na falta da profissional, andava de ônibus e a pé para chegar ao local de trabalho.

Apesar de ter passado por todas as séries, tanto em escolas da zona rural, como urbana, ela se identifica com o Jardim, séries iniciais. “É uma trajetória difícil, mas é gratificante você escutar de um pai ao final do ano que seu filho avançou, está sabendo ler, o pai agradece e você enxerga que o aluno aprendeu, tem casos que não conseguimos alcançar, mas é assim mesmo a vida”, destaca Rosilda.

Atualmente, a professora Rosilda está readaptada devido um acidente de trânsito sofrido em 2009, que deixou sequelas. Ela fez 3 cirurgias e ainda tem de fazer outra. Vinte e cinco anos em sala de aula adquiriu ainda síndrome do túnel do carpo, apesar disso, Rosilda sente saudades de lecionar e tem contato direto com ex-alunos. Ela lembra o quão ser professor é especial, pois todas as profissões perpassam pela educação. “Eu me sinto realizada, hoje tudo que eu tenho é pouco, mas adquiri através da educação. Sem meus alunos eu não tenho emprego, então eu reconheço que sou funcionária dos alunos”, conta ela. Rosilda formou-se em Pedagogia pela Unama, especializou-se em Ciências e Matemática nas séries iniciais.

Ivanária da Silva Lopes é bacharel em Recursos Humanos, tem 26 anos e foi aluna da professora Rosilda na Escola Arco-íris, quando cursava a antiga 3ª série. “A professora Rosilda foi de suma importância na minha vida educacional. Devo muito do que eu sou hoje a ela. Lembro do pulso firme que ela tinha com seus alunos, do quanto ela repetia suas falas pra gente entender as tarefas, se preciso sempre chamava a atenção de qualquer aluno. Sempre quis ser a primeira da classe em terminar as tarefas só para ser elogiada por ela na frente das outras crianças. Ainda vejo ela de vez em quando e a trato com muito respeito, sempre chamando de professora”, frisa Ivanária.

Por isso a história de Rosilda como professora foi amor à segunda vista, nasceu da necessidade à vontade de fazer a diferença na vida dos alunos, como já dizia o educador e filósofo Paulo Freire “Ninguém começa a ser professor numa certa terça-feira às 4 horas da tarde… Ninguém nasce professor ou marcado para ser professor. A gente se forma como educador permanentemente na prática e na reflexão sobre a prática”.

Aluna da professora Rosilda, Ivanária da Silva

Texto: Emilly Coelho
Fotos: Aline Nascimento